, | prof. rubens sautchuk jr.
21 fev, 2017

O Mito do Controle de Torque

Provavelmente um dos comentários ou afirmações que mais tenho ouvido ao longo do tempo sobre o sistema autoligado passivo é que seus braquetes não entregam um controle de torque tão bom quanto o sistema ativo ou o sistema tradicional. E julgo talvez que essa seja uma das maiores inverdades difundidas sobre os aparelhos ortodônticos autoligados passivos. A verdade é justamente o oposto, quando comparados todos os sistemas utilizando-se arcos retangulares de mesma espessura, o braquete que melhor “leu”a torção entregue pelo arco foi o autoligado passivo.

Entendo perfeitamente como essa afirmação incorreta tenha se difundido. Primeiro talvez tenha sido pelo fato de que o primeiro braquete autoligado de sucesso comercial tenha sido o SPEED lançado nos EUA na década de 80 (patenteado por Hebert Hanson em 1976). O SPEED é um sistema ativo e apresenta várias vantagens em relação a todos os seus predecessores rudimentares que eram braquetes passivos, dentre as principais vantagens está o melhor controle de rotação e também controle de torque superior. Mas este fato era verdadeiro até o lançamento dos braquetes Damon, mais precisamente a partir da prescrição Damon 2, que foi quando várias pesquisas comparativas começaram a ser realizadas.

Outro motivo que talvez ainda sustente essa falsa percepção seja que as empresas que vendem o sistema autoligado ativo (ou interativo, como preferir) discursem em prol da superioridade de seus braquetes em relação ao sistema passivo, no quesito controle de torque. Existe ainda um sistema de braquetes autoligados que emprega braquetes ativos no segmento anterior e passivos no segmento posterior com a premissa de se empregar o melhor sistema para cada segmento de arco (melhor deslize posterior e melhor torque anterior, pelo menos essa é a propaganda da empresa).

Além da questão histórica e das propagandas equivocadas sou obrigado a concordar que do ponto de vista “lógico” faz muito mais sentido você ter um controle de torque superior num braquete onde o arco está completamente alocado na base do slot que num braquete onde exista uma “folga” relativa na adaptação base do slot/superfície do arco. Acredito que por isso muito autores de livros e artigos nacionais, inclusive os mais recentes, ainda difundem essa falsa idéia. Mas então como é possível o sistema autoligado passivo entregar mais torque que os demais ?!?!?

A resposta é muita simples: Toda vez que você insere um arco retangular capaz de produzir um resposta de torque, você também estará inserindo uma força capaz de produzir uma deformação na estrutura do braquete. Como o sistema passivo (que tem como referencia os braquetes Damon) possui um estrutura de braquete muito mais rígida que o sistema ativo (que na grande maioria a trava de ligação é construída em níquel-titânio) e também muito mais rígida que o sistema tradicional, acaba entregando mais torque pelo simples fato de deformar menos. Como os outros braquetes estão sujeitos a maiores deformações estruturais, estes por sua vez acabam entregando menor resposta de torque.

Um artigo publicado no European Journal of Orthodontics em 2013 demonstra essa relação (Major et al. An investigation into the mechanical characteristics of selected self-ligated brackets at a series of relevant maximum torquing angles: loading and unloading curves brackets. European Journal of Orthodontics 2013; 35: 719-729). Basicamente, quanto maior a aplicação de torque no braquete, maior a sua deformação. Porém a deformação observada no sistema ativo era tamanha a ponto de comprometer a sua capacidade de exprimir o torque desejado. Abaixo o gráfico comparativo entre a deformação em milímetros do braquete quando submetido a diferentes intensidades de torque. Note como a deformação do SPEED cresce exponencialmente quando torques maiores são inseridos.

Mesmo que você não trabalhe com o SPEED ou Damon, vale lembrar que todos os braquetes autoligados que temos disponíveis no mercado nacional hoje (existem 2 excessões apenas), se não são cópias idênticas, são muito semelhantes estruturalmente a estas marcas de referência.

Em um outro artigo publicado anteriormente no American Journal (Huang et al. Numeric modeling of torque capabilities of self-ligating and conventional brackets. American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics 2009; 136(5): 638-643) os autores avaliaram a capacidade que os braquetes têm de expressar o torque. Desta vez foram comparados o SPEED, Damon e uma marca de braquete convencional com amarrilho metálico e também com amarrilho elástico. A conclusão não foi muito diferente. Damon e sistema convencional (seja com elástico ou amarrilho metálico) tiveram a melhor relação momento/torque, apesar das pequenas diferenças entre eles foram considerados estatisticamente semelhantes. E como já sabemos de antemão o sistema autoligado ativo, representado pelo SPEED teve a pior entrega de torque entre todos os braquetes estudados.

Todos os trabalhos científicos, inclusive os mais recentes, que utilizaram métodos quantitativos de comparação (sejam clínicos ou laboratoriais) chegaram a conclusões semelhantes das apresentadas acima. Aqueles baseados apenas na opinião subjetiva do observador acabam falhando em concluir seguindo apenas o “senso comum”.

Dentre os estudos clínicos, um que considero interessante comparou a capacidade de finalização de torque em casos clínicos com extração seguido de mecânica de retração, e também casos sem extração dentária, num total de 105 tratamentos estudados. Para este estudo foi comparado os braquetes convencionais com os braquetes Damon. O resultado demonstrou que não existe diferença de finalização e controle torque entre os braquetes estudados. Para todos os casos do estudo o arco de finalização utilizado foi o Aço 019 x 025. (Pandis N, Strigou S, Eliades T. Maxillary incisor torque with conventional and self-ligating brackets: a prospective clinical trial. Orthodontics and Craniofacial Research 2006; 9: 193-198).

Uma curiosidade sobre os autores do artigo anterior é que o Dr. Theodore Eliades é Professor e Diretor da clínica de Ortodontia da Universidade de Zurich, e junto com o Dr. Nikolaos Pandis são autores do livro Self-Ligation in Orthodontics, no qual a mecânica principal abordada é a autoligada ativa. Considero isso interessante pelo fato não serem “promotores” da mecânica Damon e terem um artigo concluindo que esses braquetes são tão bons clinicamente na expressão do torque quanto o sistema tradicional.

Para finalizar, talvez o trabalho mais extenso sobre o assunto tenha sido uma tese de Doutorado que utilizou um “typodont” cheio de nanosensores capazes de avaliar todos os tipos de força promovidos durante uma ativação ortodôntica. (Badawi H. The use of multi-axis force transducers for orthodontic forces and moments identification. Doctor of Philosophy Thesis – University of Alberta – 2009).

Na figura acima está um modelo desses “typodonts”. A conclusão desse trabalho foi muito semelhante com aquilo que já discutimos anteriormente. Portanto, da próxima vez que você ouvir que o sistema passivo não entrega um bom controle de torque, você já sabe o que as pesquisas dizem sobre o assunto. Não se esqueça que sempre haverão opiniões divergentes sobre qualquer assunto, mas também é importante lembrar que contra os fatos, não há retórica que seja suficiente.

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